Sindicato dos Estivadores do Espírito Santo

Carlos Ney fala como era o trabalho na estiva na década de 1980

08/10/2025 às 12:17

Ney é estivador desde 1997

> Estiva: Qual foi sua trajetória na estiva desde que começou na profissão?
> Ney:
Sou estivador desde que eu entrei aqui, em 1977, quando o presidente era Délio Lima. Desde a minha chegada, acompanhei a trajetória de vários presidentes. Em 1964, tivemos Ariston (Fernandes de Almeida), que foi eleito e depois ele foi presidente na intervenção de 1964. Ele teve dois mandatos. Depois da intervenção, veio Alencar Pereira (pai do Caseiro), que teve dois mandatos e perdeu as eleições para Seu João Matias, que tirou um mandato, mas não terminou. Depois, quem assumiu foi Marcos Pinto, que tirou aquele período tampão. Depois ele se candidatou e ganhou e ficou de 1971 a 1974. Daí, em 1974, Délio Lima assumiu e ficou até 1977, quando o finado Jocy (Gonçalves) se elegeu. Depois dele, tivemos Seu Divino, Jetro (Dantas), Jorge (Luiz Ferreira dos Santos), e os meninos mais novos, como José Adilson (Pereira) e Bino (Cícero Benedito Gonzaga).

> Como era o trabalho da Estiva na época em que você começou?
>
O trabalho da estiva era mais sacrificado. Hoje está automatizado, está mais fácil trabalhar. Antes, a gente pegava os dormentes na mão para colocar no porão do navio. Muitos navios vinham com saco de sal de 25 kg. Mas como o navio viajou muito, bateu na água, o sal batia e virava pedra. Era sangue na cabeça dos dedos. Na antiga CST mesmo, quando começou a fazer o autoforno, vinha navio da Itália, porque não tínhamos recursos suficientes para tirar caixaria. E eu, como empilhadeirista, muitas vezes, conseguia tirar “quarto de alto” pegando pela segunda de baixo para poder tirar e escorregar a caixa pela lateral do navio para não danificar a caixa, porque se o tijolo refratário caísse no porão do navio, seria pior pra nós, aquilo espalhado, a gente tinha que juntar e dificultava a produção.

"Muitos navios vinham com saco de sal de 25 kg. Mas como o navio viajou muito, bateu na água, o sal batia e virava pedra. Era sangue na cabeça dos dedos."

> Você pode dar exemplos de como a falta de recursos e a infraestrutura precária afetavam o trabalho?
>
Muitas vezes, vinha navio frigorífico, e nós não tínhamos máquina suficiente para pegar a carga lá no canto do porão. O que fazíamos? Passávamos um cabo de aço na caixa de baixo e vínhamos puxando. Portocel, talvez muitas pessoas não conheçam, mas quando começamos a trabalhar, eu mesmo e outros companheiros trabalhamos com empilhadeira de garfo, botando fardo de celulose na mura. Tem gente que acha gozado, mas a gente pegava o fardo pelo arame e fazia a parte de baixo. Na hora de dobrar em cima, nós levávamos até o próximo, botávamos uma madeirinha para pegar com o garfo, porque ele não dava condições de colocar em cima. O rechego mesmo, que era feito ali onde hoje é o Peiú, nós fazíamos com a pá, com a vassoura, o rechego de ferro-gusa. Tirava 20 homens no porão (do navio), que hoje quem faz é a pá mecânica, a gente ficava em cima do lote e jogava o ferro-gusa o dia todinho na mura para poder espalhar.

> Pode descrever algumas funções, como eram executadas antes e como são hoje, com a modernização?
> Todas as funções foram modernizadas. Fazíamos o trabalho com empilhadeira que não era adequada, hoje tem empilhadeira adequada. Trabalhamos com empilhadeira pegando por baixo, hoje é especializada, pega contêiner por cima. As placas em Praia Mole, o sistema modernizou muito. Nós pegávamos o café na mão, hoje vai no contêiner. Caixas de manteiga de cacau era na mão, sacarias, caixas, era na mão, sal era na mão, rechego era na mão, hoje é pá mecânica, tem o grab que pega. Os equipamentos eram precários. Eu já trabalhei com empilhadeira sem assento, botando saco de estopa. Hoje, ela tem um assento e até aparelhos na mão para o operador. Antes era muito trabalho braçal, hoje é mais automatizado. A modernidade foi muito boa, pois deu condições melhores aos trabalhadores.

"Antes era muito trabalho braçal, hoje é mais automatizado. A modernidade foi muito boa, pois deu condições melhores aos trabalhadores."

> Como essa evolução do trabalho no porto se reflete nas condições do trabalhador hoje?
> A gente sabe que o coração do patrão é o bolso. Tudo o que ele puder tirar do trabalhador, ele vai tirar. Então a diretoria vê as condições do trabalhador e trabalha em conjunto com a categoria. E a categoria estando melhor, a diretoria fica satisfeita também. Para eleger, às vezes reeleger um presidente é porque sabe o trabalho que está sendo feito em defesa da categoria. Tudo quem ganha é a categoria. Eu me surpreendi, porque depois de 10 anos sem ir a Portocel, fui convidado pela diretoria para ir ao terminal e ver a expansão do porto. Quando chegamos lá, só tinha um berço, hoje tem três ou mais. Só tinha um armazém, agora tem nove. Olha a evolução que teve e o ganho também melhorou muito. A categoria está de parabéns. Eu sempre digo: para ter uma categoria forte, tem que ter uma diretoria forte, porque se a diretoria for fraca, a categoria se afunda. 

"Para ter uma categoria forte, tem que ter uma diretoria forte, porque se a diretoria for fraca, a categoria se afunda." 

> Qual a importância de compartilhar o passado da Estiva?
> Tinha que pegar esses meninos que estão chegando agora e falar a realidade da Estiva, o que nós passamos, e antes de mim foi mais sacrificado. Por que? Para eles conhecerem, terem mais amor e terem o apreço (pelo sindicato). Por que muitos falam que a diretoria faz um “guarda-chuva” com os mais velhos? Pelas dificuldades que nós passamos no passado, hoje a gente ser contemplado com plano de saúde, uma complementação. Fizemos o melhor para hoje, eles chegarem aqui e encontrar tudo feito. 

> Na sua opinião, o que falta para a nova geração se engajar mais nas questões sindicais?
> Para quem está chegando, primeiro é ter amor por aquilo que eles estão fazendo, fazer com carinho, respeito e respeitar a outra parte (patrão). Muitas vezes a gente exige muita coisa, mas o patrão não vai dar. Ter companheirismo, obrigação, dedicação, sem isso não vão chegar a lugar nenhum. O sindicato somos nós, é preciso entendimento da categoria com a diretoria. Ninguém vai perpetuar aqui, o sindicato tem mais de 100 anos, às vezes a gente vê algumas pessoas que não têm aquele carinho que nós tivemos, que viemos de pai pra filho, de irmão pra irmão. Meu irmão que me botou aqui. Minha família era estivadora. O que falta é dar o conhecimento a eles (novos estivadores) do que é o sindicato. Muitas vezes, eles chegam aqui e não sabem nem o que é o sindicato. Quando houver um acesso ao quadro, chamar essas pessoas que estão entrando e anunciar quem é a categoria que vem de mais de 100 anos atrás, os sacrifícios e as dificuldades que os mais velhos tiveram, para eles terem amor por isso aqui. Eu tenho amor porque eu sei o que nós passamos. Já encaramos a polícia aqui, já entraram de cavalo no sindicato. Nós não deixamos subir. É um passado que nós nos orgulhamos. O sindicato é forte e precisa ser respeitado.

"Ter companheirismo, obrigação, dedicação, sem isso não vão chegar a lugar nenhum."

> Que recado você gostaria de deixar para a Estiva em seus 107 anos de história?
> O recado que eu quero deixar para os estivadores é que eles que venham com sorriso aberto, coração aberto. Tenham amor, responsabilidade e compreensão por aquilo que fazem. As coisas nem sempre são da forma como queremos. O sindicato tem mais de 100 anos e o que nós queremos deixar para eles é que tenham dedicação e carinho. Que eles respeitem a outra parte (o patronal) e saibam que as conquistas não vêm de graça; vêm de muita luta do sindicato. O sindicato é forte e tem que ser respeitado.

"As conquistas não vêm de graça; vêm de muita luta do sindicato. O sindicato é forte e tem que ser respeitado."