No universo portuário, onde a força bruta das máquinas dita o ritmo, existe uma força ainda maior, embora muitas vezes silenciosa: a das mulheres que sustentam a base da “família estivadora”. Neste Dia das Mães, o sindicato presta homenagem a uma dessas figuras centrais, cuja história é um entrelaçado de amor, saudade e resistência: Maria Fátima França Pimentel, 69 anos. Filha do saudoso Abelardo de Jesus Franca e irmã do estivador Marcos Antônio Alves Franca, ela também construiu sua vida ao lado do aposentado José Carlos Guedes Pimentel.
Nesse cenário, a vida de Fátima nunca esteve longe do porto. Sua árvore genealógica é escrita com o suor da estiva, fazendo o elo de uma linhagem de luta. As raízes da resiliência vieram cedo: Fátima ajudava a mãe, que criou nove filhos com a garra das mulheres de antigamente. Ela lembra da época em que a confiança era a moeda corrente:
“Quando eu era mais nova, a gente ia ao armazém, pegava fiado, anotava no caderninho e ficava esperando... esperando o pai ou os irmãos chegarem do navio com o dinheiro para poder pagar o que a gente devia. Era uma luta diária desde pequena ajudando em casa”. Essa dependência do mar e do trabalho braçal forjou uma mulher que sabe o valor de cada centavo e de cada direito conquistado.
E a vida de esposa não foi diferente. “Ser esposa de estivador não é fácil não, viu? A gente passa muita coisa sozinha. Eu tive filho sozinha, passei Natal sozinha, aniversários... tudo porque ele estava escalado, estava lá no navio trabalhando.”
Embora o desejo de ver os quatro filhos seguirem os passos da família no cais fosse latente, o destino traçou outras rotas: a vida os levou para além das fronteiras do Brasil. Hoje, com seis netos, ela guarda no peito a saudade que só as mães de quem atravessa oceanos conhecem, mas mantém viva a chama da categoria que a formou.
Fátima não foi apenas uma espectadora da história; ela foi protagonista. Em 1993, um ano decisivo para a categoria devido à Lei de Modernização dos Portos (Lei 8.630), ela e um grupo de esposas de estivadores pegaram os filhos pequenos e foram para Brasília mostrar que o movimento sindical se faz também com a força da família.
Nas viagens, elas não levavam apenas faixas, mas o sustento de suas casas e o futuro de seus companheiros. “Estivemos duas vezes em Brasília, em janeiro e março do mesmo ano, no governo de Itamar Franco. Levamos nossos filhos pequenos para as caminhadas, além das 22 horas de ônibus. Mas valia a pena, porque tínhamos que defender nosso ganha-pão. A gente ia para lutar pelos direitos deles, porque se era bom para eles, era bom para a família toda. A gente botava a cara mesmo na frente do movimento."
A união das esposas, além da militância, movia a organização de trabalhos sociais voluntários, provando que a solidariedade é o alicerce de qualquer conquista.
Para Fátima, o sindicato nunca foi apenas um prédio de reuniões, mas um espaço de acolhimento transformado pela mão das mulheres. Esse grupo atuava na linha de frente de trabalhos sociais voluntários, organizando desde auxílio para famílias em dificuldades até eventos que mantinham a categoria unida.
Elas compreendiam que a dor de uma família estivadora era a dor de todas. Essa atuação feminina humanizou o sindicato, transformando a luta por direitos também em uma luta por dignidade social e bem-estar coletivo.
“A união das esposas era uma coisa linda de ver. A gente não só ia para protesto, mas a gente fazia muito trabalho social voluntário dentro do sindicato. A gente se ajudava, sabe? Quando uma família estava passando necessidade, a gente se organizava, fazia o que podia. O sindicato para a gente era isso, era união, era a gente cuidando uma da outra enquanto os maridos estavam no mar.”
A trajetória de Fátima nos ensina que, tão fundamental quanto o colo de uma mãe, é a estrutura de um sindicato forte. Assim como Fátima cuidou dos seus, o sindicato busca o amparo, a proteção jurídica e a dignidade para seus associados. É a instituição que, nos momentos de “mar agitado”, se coloca à frente para garantir que o trabalhador não esteja sozinho.
“Para mim, o sindicato é que nem mãe. Uma mãe quer sempre o melhor para o filho, quer proteger, quer ver bem. O sindicato é assim com os associados, ele busca a proteção, busca o melhor para todo mundo. Por isso que eu tenho essa admiração. E fica aqui meu abraço para todas as mães estivadoras, essas mulheres guerreiras que lutam junto, que não desistem nunca. A gente sabe o valor da nossa luta.”
Às mães estivadoras e às esposas que sustentam o lar enquanto o navio não atraca: vocês são o verdadeiro motor do porto. Fátima, sua história é a nossa história. Obrigado por nos ensinar que lutar em família é o que nos torna invencíveis.